
Além de Ouros de Eldorado, acontece também na Pinacoteca outra exposição tão interessante quanto. Trata-se da mostra François Auguste Biard: o indígena e o olhar romântico. Ao visitar as duas exposições, o visitante tem a oportunidade de refletir sobre a figura do indígena sob dois pontos de vista: enquanto Ouros de Eldorado oferece ao visitante objetos antropológicos produzidos pelos próprios Ameríndios; a mostra de Biard permite ver como os europeus do século XIX percebiam esses mesmos Ameríndios, porém, através da ótica do movimento artístico conhecido como Romantismo.
O Romantismo foi um movimento artístico, literário e filosófico que surgiu na Europa a partir do final do século XVII. Algumas de suas principais características eram a subjetividade, a busca pelo exótico e idealizações (de uma mulher, de um herói, de uma nação). No Brasil o movimento chamado de Indianismo foi um derivativo do movimento romântico que passou a idealizar o indígena como um bom selvagem que vivia em harmonia completa com a natureza. Se anteriormente o indígena estava a margem da historia brasileira, com a chegada do indianismo ele passa a representar um tipo de herói nacional altamente idealizado e passa a ser tema central de obras de arte ou personagens da literatura, como nos livros O Guarani e Iracema de Jose de Alencar.
François Auguste Biard não foi o único a produzir obras com essas características. Outros expoentes foram Jean Baptiste Debret, Johann Moriz Rugendas e Victor Meirelles.
Não deixe de observar que as imagens representadas por essa produção artística romântica – tanto européia como brasileira - tendem a reforçar estereótipos e preconceitos que associam o indígena ao mito do bom selvagem. Por exemplo, a conceito de índios ingênuos que não cultivavam a floresta, deixando-a intocada, é uma percepção já ultrapassada e que não é representativa da condição indígena tanto em tempos pré-colombianos como nos dias de hoje.
Sabemos, por exemplo, que a Amazônia estava longe de ser território intacto. Há estudos que sugerem que a floresta amazônica era, em algumas regiões, como um grande jardim modificado e cultivado pela sociedades pré-colombianas. Por exemplo, pesquisas arqueológicas têm sugerido que a terra preta de índio é um produto antrópico, fruto da ação humana. Ou seja, através de processos complexos de adição de carvão e ossos ao solo, índios pré-colombianos conseguiram melhorar a qualidade do solo e, dessa forma, potencializar sua capacidade agrícola.
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